Ser Rover

 

    

  Para o melhor entendimento do que se passava naquela época (o texto a seguir foi escrito em 1936), preferi manter o texto fiel em sua ortografia. E para os que não sabem, os Rover Scouts eram formados(aqui no Brasil) por jovens a partir de 17 anos. Como não havia o Ramo Sênior, os garotos (Boy Scouts) passavam direto pra o Roverismo. Com a criação do Ramo Sênior em alguns países (entre eles Brasil e Austrália) Os Rover Scouts, aqui no Brasil, passaram a se chamar de Pioneiros. 
    Acho que este texto não reflete apenas o espírito que um Rover deveria ter, mas sim o de todos nós que assumimos a Promessa Escoteira.
 

Ser Rover

 

        - Rover? Mas tu és Rover? Então és um santo. Dizem que ser Rover é defender a mais bela causa da mocidade... Dizem. mesmo, que ser rover é atingir ao mais alto nas fileiras do Escotismo... Quer dizer que não podes brincar o carnaval; não podes namorar; nem ter outros amigos senão os que também são Rovers? E’s então, assim, uma espécie de, como dizer, sacerdote... Tens umas certas Leis que são intransigentes. Mas, então, como de vez em quando vejo rapazes que consta, são Rovers, brincando, dançado, indo mesmo a bailes? ... Explica-me isso direito, ou, então, por Deus, não sei que juízo farei de ti e de teus companheiros!
        - Meu amigo, primeiramente dir-te-ei que sou um Rover e sel-o-ei por toda a vida...
        - Mas...
        - Já sei o que vais dizer… Sim, repito, toda a vida! O Roverismo não foi criado somente para a mocidade… Em nossas fileiras recebemos homens de 18 a 81 anos… Voltando, porém, ao que tu disseste, rebato o ponto em que afirmas ser o Rover um santo. Não! O Rover, é um bom homem como outro qualquer, desejoso de ser Bom e praticar o Bem somente por ser o Bem! A humanidade costuma olhar certos ideais como divinos e quer elevar demais seus defensores… E, repare, meu amigo, justamente os que abraçam esses ideais são os mais criticados. Olha o exemplo frisante do padre, do medico… Si é puro o primeiro ou si salva o segundo, nada fizeram mais do que seus deveres; mas si escorregam ou falham, por uma única vez que seja, são logo vitimas da altura a que o povo os levantou, altura esta que não há nenhuma razão de ser. Disse alguém com muita felicidade: "A altura a que um homem se eleva nada mais serve do que para medir o tamanho de sua queda…"
    Assim o Roverismo. Nada de mais há em nosso programa. Si tu já o tivesses lido, verificarias o que afirmou. Porque motivo dizes que não pode um rover divertir-se, dançar... Não faz a dança parte da educação de um homem? E ter amigos sem ser Rovers, também não é razão para apontares. Muitos rapazes não ingressam no nosso Movimento por motivos alheios a sua vontade. A profissão, os afazeres, não lh’o permitem, mas não é por isso que nos devemos privar dessas amizades, uma vez que sejam dignas. Precisas compreender, meu amigo, que ser Rover é ser só e simplesmente um Homem na verdadeira acepção da palavra. Si, em qualquer campo que atua, uma rapaz Rover-Scout logo se destaca, é porque ao par dos estudos em Mesa Redonda das questões do Dever, do Civismo e da Moral, há atividades no Mar e no Campo. Ahi, as suas qualidades latentes, encontram margem para se desenvolverem. E além disso, o rapaz adquire novos conhecimentos que a experiência dos mais antigos lhe ensina.
    Na época em que vivemos, quase tudo é falso e indigno. O Roverismo é como o Guia seguro, entre os penhascos terríveis da existência. Ensina-nos e auxilia-nos a vencer. Todo o homem tem um programa, e o Roverismo com seus ensinamentos e seu vasto campo de ação, é a senda, das mais seguras, para a Victoria.
    Portanto, meu amigo, que não te cause surpresa saber que entre os teus colegas ou até mesmo entre os teus mestres há rovers. Si teu amigo é um Rover, observa-o. Não quero dizer que ele seja um Deus; mas somente um Homem como o Brasil precisa de tantos!...

 

Texto escrito por: Wilson Reis e Silva - Comissário de Rover Scouts
Editado Primeiramente: Revista Escoteiro do Mar, número 1 - março de 1936, p.11