Cavalaria

 



A CAVALARIA E O SEU LUGAR NA HISTÓRIA

CAVALARIA: Este termo é dos que precisam de explicação, pois tem sido empregado com diferentes sentidos. O New Wnglish Dictionary distingue sete significações diferentes, enquanto o Lloyd's Encyclopaedic Dictionary dá nada menos de dez. Todavia do ponto de vista histórico, quer os sete, quer os dez, podem reduzir-se a quatro, como se vai ver. Primeiro usam-se Cavalaria simplesmente em referência a um grupo de cavaleiros ou soldados a cavalo, armados para a luta; em segundo lugar, usam-se Cavalaria no sentido abstrato Knighthood como dignidade de ordem, posição e qualidade de cavaleiro; em terceiro lugar, encontra-se Cavalaria empregada como sentido técnico ou feudal, com a significação de "vassalagem por serviço cavalheiresco" e finalmente em quarto lugar, emprega-se Cavalaria em sentido mais vasto para abranger todo o sistema de Cavalaria da baixa Idade Média, com os seus códigos e costumes religiosos, morais e sociais característicos.
A Cavalaria foi um sistema que modificou e completou o feudalismo. Não foi uma instituição, mas uma associação ética e religiosa que lançou um raio de beleza ideal através de uma sociedade corrompida pela anarquia. A França foi, realmente a sua pátria e a região que ela alcançou a perfeição mais completa. No seu mais alto sentido e em teoria, ergue perante nós o perfeito gentil-homem de elevado nascimento, de modos gentis, verdadeiro, fiel, cortês para as mulheres, puro, valente e destemido, a nada se poupando, cheio de profundo sentimento religioso, inclinando-se perante Deus e as damas, mas com altivez na presença de todos os outros. É também analisada como composta pelos seguintes elementos: elevado sentimento de honra, desprezo pelo perigo e pela morte, amor pela aventura, compaixão pelos fracos e oprimidos, generosidade, auto sacrifício e altruísmo.

TRANSFORMAÇÃO DA CAVALARIA: Vamos analisar o processo pelo qual uma força militar, caracterizada pelo barbarismo completo e pela brutalidade sanguinária do decadente século IX, se transformou (pelo menos em teoria) totalmente e se converteu antes do século XIII, numa classe de perfeitos gentis-homens, perfeitamente aptos em espírito, se não em perícia técnica, para serem missionários médicos.
CAVALEIRO: - Knight em inglês, é o equivalente da palavra francesa chevalier e o termo inglês knighthood é sinônimo do francês chevalerie, assim como do espanhol caballeria e do italiano cavalleria.

Mas, antes da conquista normanda, não havia tal equivalência. Para os continentais, cavaleiro (cavalier) era, como o indica o próprio nome, o que cavalga (horseman) e o knight anglo-saxão não o era. O knight ou cnight anglo-saxão foi, ao princípio, simplesmente qualquer mancebo; mais tarde o nome aplicou-se em particular a um jovem que servia ou acompanhava um senhor; a seguir especializou-se mais ainda, para caracterizar o que prestava serviço militar e foi traduzido para o latim pela palavra miles que do mesmo modo, se restringiu ao significado de soldado; por fim, na época da conquista normanda, aplicou-se em particular aos guerreiros dependentes da classe inferior de proprietários que se haviam ligado a qualquer senhor e combatiam sob a sua bandeira. Em resumo, o termo feudalizara-se: aplicava-se a vassalos militares de condes e nobres, bispos e abades e outros ilustres potentados locais. Mas ainda então, os cnihtas combatiam à pé. Foram os Normandos que trouxeram consigo o cavalo de batalha; todos os seus senhores menos importantes eram cavaleiros, sendo riders e não knights o termo inglês equivalente. E assim a Crônica anglo-saxônica diz-nos que no ano de 1085 o Rei Guilherme armou seu filho Henrique, cavaleiro (rider). Todavia, a expressão não voltou a empregar-se, pois esse mesmo Henrique casou com uma mulher inglesa, e sob a sua influência os dois povos, normando e saxão, misturaram-se e fundiram-se. Os cnhitas saxões aprenderam a cavalgar e os chevaliers normandos ficaram cavaleiros.
Quer na Inglaterra, quer no continente, o cavaleiro do primeiro período normando era um personagem puramente feudal. Possuía uma parcela da terra com a condição de prestar serviço militar; encontrava-se obrigado, pelos termos da sua vassalagem, a seguir o seu senhor ao campo quarenta dias no ano, equipado por completo e acompanhado a preceito, à própria custa; além disso, tinha de freqüentar a corte do seu senhor, pagar certas custas e ajudas, submeter-se a várias obrigações como de culto, de casamento, de confisco, etc. Não era indivíduo simpático. Ninguém gostava dele.
O rei achava-o de um aborrecimento intolerável: na guerra era inútil e não dava proveito; na paz, turbulento e rebelde, obstáculo insuperável à tranqüilidade e ao bom governo. A Igreja sofria em suas mãos: era cúpido e agressivo, constantemente pronto a roubar bispados e mosteiros, desafiando a disciplina eclesiástica. Para o povo, constituía objeto de terror infindo; era um simples bandoleiro, que nenhuma consideração de misericórdia ou de honra coibia.
No século XI, na verdade, o feudalismo desempenhara o seu papel, e o cavaleiro feudal tornara-se um anacronismo, cuja abolição ou transformação era a necessidade mais urgente da nova idade. Como sistema militar, o feudalismo nascera no período carolíngeo como único meio possível de defesa da Europa ocidental contra as hostes invasoras de Sarracenos, Eslavos, Magiares e Dinamarqueses que ameaçavam destruir a Cristandade. Quando surgiu o ano 1000, o feudalismo cumprira sua missão. Os Sarracenos haviam sido empurrados para além dos Pirineus, os Eslavos forçados a recuar até ao Oder; os Magiares expulsos da Alemanha e da Itália, limitados na Hungria; os Dinamarqueses também obrigados a pôr fim às incursões e estabeleceram-se como católicos na Inglaterra oriental ou na França do norte.
O Cristianismo militarizou-se. No concílio de Clermont em 1095, enquanto pregava-se a primeira Cruzada, oficializava-se a doutrina geral de que todas as pessoas do sexo masculino de nascimento nobre, ao atingir os 12 anos de idade, devia jurar solenemente perante um bispo, que haveria de defender os oprimidos, as viúvas e os órfãos e que todas as mulheres de nobre nascimento deviam merecer-lhe cuidado especial.
Nascera a cavalaria cristã independente da cavalaria feudal. A Igreja encontrara ocupação para os bandidos da Europa sem emprego; mais ainda, começou a espalhar os ideais de sacrifício e de altruísmo. Iniciara eficazmente a sua missão de converter os selvagens em perfeitos gentis-homens, castos e piedosos, que se impunham por dever e sentiam alegria em andar pelo mundo e reparar os males humanos.
É possível que o esforço mais notável, empreendido, durante o período em referência, para harmonizar a teoria com a prática da cavalaria cristã, fosse a instituição das grandes Ordens de cavaleiros cruzados: Os Hospitalários, Os Templários e os Teutônicos, aos quais se adaptaram os princípios do monarquismo com vista à profissão das armas. Começaram os Hospitalários por ordem de caridade e mais tarde, juntaram ao seu programa a atividade militar; os Templários eram simplesmente monges-guerreiros e durante todo o tempo, os Cavaleiros Teutônicos aliaram desde o princípio a luta à filantropia. Faziam as feridas e curavam-nas.

A CAVALARIA TERMINOU?
A Cavalaria encontrou-se em evidente declínio após a extinção do Reino de Jerusalém (1291) e a supressão da Ordem dos Templários (1312). O período de sua preponderância foi, de fato, precisamente o das Cruzadas, dois séculos mais ou menos, de 1100 a 1300. As principais causas do seu declínio foram:

1. Os Reis, na sua luta contra o feudalismo, começaram ainda no século XIII, a armar cavaleiros, a crianças, a pequenos proprietários e a burgueses ricos, prontos a pagar pela honra;

2. As alterações na composição e na constituição dos exércitos medievais, tornou obsoleta a formação da cavalaria. Um corpo de cavaleiros, era de fato, não um exército em si, mas um concurso fortuito de aventureiros individuais, sem coesão, disciplina ou alvo comum;

3. A Pólvora: esta, foi fatal à Cavalaria como força militar. Transformou também, o Castelo inexpugnável do barão e do cavaleiro, uma interessante velharia.

4. Mais tarde, com a guerra dos cem anos entre França e Inglaterra, na qual os Cavaleiros foram substituídos por tropas mercenárias ou profissionais, que seguiam esquemas táticos pré-determinados. Conta-nos o autor, que essa guerra iniciou-se no princípio cavalheiresco, no qual Felipe VI (França), desafiou Enrique III (Inglaterra) para a justa pessoal. Porém, depois, descambou com as décadas, para uma guerra generalizada, com proletários e soldados regulares, culminando com a vitória da França em 1453.
A seguir veio a guerra das Duas Rosas na Inglaterra, em que todas as normas de honra desapareceram em "uma orgia diabólica de ódio dinástico". Depois, vieram as guerras de religião do século XVI, que persistem até os nossos dias, nas quais valem atentados, assassínios, traições, conspirações e tudo o que é contrário ao espírito cavalheiresco.

ENTÃO, NÃO EXISTE MAIS CAVALARIA?
Embora a cavalaria desaparecesse da arte da guerra nos séculos XIV e XV, manteve-se muito tempo na educação, nas maneiras, na moral, na sociedade, na corte e em todas as relações das classes dirigentes. A Cavalaria (espírito cavalheiresco), exercia influência tão forte como norma de vida, no espírito e na consciência dos barões e dos cavaleiros, que não se limitaram só a conservar os seus princípios gerais de honra, piedade e cortesia e a aplica-los em novos moldes às novas condições; trataram de manter, ressucitar e até ampliar as instituições obsoletas da Cavalaria que findara. Tornaram a educação do Pajem e do Escudeiro mais rigorosa do que antes havia sido, elaboraram as regras de cortesia entre os membros das Ordens Cavalheirescas, desenvolveram o Culto da "Mulher Ideal" com mais extravagância do que até aí; celebraram com magnificência nunca vista, a entrada dos mancebos na Cavalaria, organizaram torneios com um explendor sem precedentes, deram enorme atenção ao desenvolvimento da ciência da heráldica. A leitura empreendeu a missão da reabilitação e auxiliou nos esforços para insuflar vida a uma instituição morimbunda, transformando em heróis: Heitor, Aquiles, Alexandre, César, Arthur e Carlos Magno. Mas, acima de tudo, fundaram-se novas Ordens de Cavalaria. Antes do próximo passo que é a Cavalaria Hoje, relembremos os preceitos que norteiam o Espírito Cavalheiresco:

CAVALARIA

Composição
Virtudes Primárias
Virtudes Secundárias
Virtudes Terciárias
Outros
A Guerra
Coragem
Fidelidade ao Senhor
Cortesia
Verdade
A Religião
Lealdade
Obediência
Humildade
Confiança
A Galanteria
Generosidade
Castidade*
Beneficência
Adesão à Palavra Empenhada**

(*1) Um Cavaleiro casado era considerado casto se fiel à esposa.
(*2) Inclui a Fidelidade aos compromissos assumidos.

DE PAJEM A CAVALEIRO
Até os 7 anos, o menino estava entregue aos cuidados da mãe. Depois, ia como Pajem para o Castelo do Senhor de seu pai. Durante sete anos ficava entregue às mulheres, que além de o instruírem na arte do amor, lhe ensinavam a executar todas as qualidades de trabalhos caseiros e sérios e a prestar todas as espécies de serviços pessoais. Além disso, faziam-lhe compreender que servindo assim humildemente não incorria em perda de dignidade pessoal. Depois insinuavam-lhe a prática dos seus deveres à maneira tão cara às mestras de todos os tempos; ou seja, acautelavam-no contra o orgulho, a inveja, a cólera, a preguiça, a gula e a luxúria; davam-lhe informações referentes às sete virtudes, aos dez mandamentos, aos doze artigos de fé e às quatorze obras de misericórdia.
Ao aproximar-se o fim deste período de Pajem, os homens ensinavam-lhe a correr, saltar, lutar, cavalgar, usar armas de brincar, a ajudar o senhor a armar-se com as suas armas para luta mais séria. Aos 14 anos, o Pajem saia da tutela das mulheres, apesar de não ficar fora de sua influência e tornava-se Escudeiro.
Como Escudeiro, o jovem era instruído novamente contra o orgulho e a modificar seus hábitos higiênicos entre outros. Por exemplo, era incentivado a manter sempre as mãos e unhas limpas, assim como o resto do corpo. Iria então ser instruído a usar armas, guiar o pesado corcel, adestrar cavalos de guerra, Ter em ordem o equipamento do cavaleiro, além de sujeitar-se a uma série de exercícios continuados, com o fim de lhe aumentarem a força e a destreza; devia aprender a ser ágil nos desportos. Depois, para poder desempenhar os preceitos de cortesia às noites, o recente escudeiro tinha de praticar as artes da música e da poesia e de aprender a jogar xadrez e o gamão. Além disso, devia ainda desempenhar serviços domésticos, como trinchar carne, servir à mesa e arranjar a sala de baile. Nas grandes casas dos barões ou dos príncipes, onde havia muitos escudeiros, as funções dividiam-se entre eles. Havia padeiros, dispenseiros, criados, camareiros e (os de maior categoria), escudeiros ou ajudantes pessoais do Senhor.
Quando o Escudeiro chegava aos 21 anos, preparava-se para ser Cavaleiro. A cerimônia pela qual se lhe conferia esta elevada categoria era, em circunstâncias normais, longa e solene, elaborada pela Igreja, assemelhando-se à ordenação de um sacerdote. Todavia quando o caso urgia, por exemplo, no campo de batalha, a cavalaria poderia conferir-se apenas cingindo a espada ao que se seguia a cerimônia do beijo. Os Cavaleiros assim investidos, conheciam-se pelo nome de "Cavaleiros da Espada" e por este título se distinguiam dos "Cavaleiros do Banho", que tinham seguido o processo completo de investidura, em que uma característica importante era a cerimônia de um banho. Em teoria, qualquer Cavaleiro podia armar outro, porque em cavalaria todos eram iguais. Mas na prática, os reis acharam necessário chamar cada vez mais a si a investidura de um cavaleiro, ou autorizar representantes seus para o efeito.

Em termos gerais, a cerimônia ( Observem que estamos falando da Cavalaria Secular e não dos Rituais em Ordens como os Templários) consistiam:
1. O banho - purificação;
2. Revestimento da Túnica Branca - inocência;
3. Revestimento do Manto Vermelho - auto-sacrifício;
4. Revestimento do Gibão Preto - morte
5. Jejum de 24 horas
6. Vigília de uma noite inteira na Capela
7. A confissão, a missa e o sermão
8. A benção da espada
9. A prestação dos votos
10. A imposição da armadura, das esporas e da espada
11. O beijo
12. A colocação do elmo, o montar a cavalo e a execução de exercícios espetaculares.

Os deveres impostos pelos votos cavalheirescos eram numerosos. Os mais importantes:

1. Temer a Deus e manter a religião cristã;
2. Servir fiel e valorosamente o Rei;
3. Proteger os fracos e os indefesos;
4. Evitar as ofensas voluntárias;
5. Viver pela Honra e pela Glória desprezando a recompensa pecuniária;
6. Combater pelo bem estar de todos;
7. Obedecer às autoridades;
8. Manter a Honra da Ordem da Cavalaria;
9. Evitar a deslealdade, a mesquinhes e o embuste;
10. Proceder com lisura e dizer a verdade;
11. Levar até o final todas as empresas começadas;
12. Respeitar a honra das mulheres;
13. Não recusar desafio de um igual e nunca voltar as costas ao inimigo.

Estes votos corporizam um nobre ideal, e se até só parcialmente fossem cumpridos, já deviam ter feito muito para elevar a sociedade militar.

A CERIMÔNIA DE INICIAÇÃO À CAVALARIA SECULAR

Não possuímos, ainda, qualquer documento que possibilite a descrição de um Ritual de Iniciação em uma Ordem Templária, Hospitalária ou Teutônica; portanto, o texto a seguir trata do modo como um Escudeiro deve receber a Cavalaria Secular (tradicional). Em primeiro lugar, antes do Escudeiro entrar para a Ordem de Cavalaria, ele deve confessar-se das faltas que tenha cometido contra Deus, a quem deverá servir na Ordem. E estando sem pecados, deve receber o Corpo de Cristo em Sacramento, conforme convém à Religião.
Para armar-se um Cavaleiro, convém que se prepare uma festa das que são celebradas todos os anos, para que em razão da festa reúnam-se àquele dia muitos homens ao lugar onde o Escudeiro haverá de ser armado e todos roguem à Deus por Graças e Bênçãos ao Escudeiro, com as quais ele será leal à Ordem da Cavalaria!
Deve o Escudeiro recolher-se em Vigília, em honra ao santo da festa que se celebra. Por toda a noite que antecede ao dia em que deverá ser armado, há de permanecer na Igreja e velar, estando em oração e contemplação, ouvindo falar de Deus e da Cavalaria. Mas se ao contrário, prefere continuar a ouvir as danças e os cantos que falam das tentações e outras coisas pecaminosas, já estará ingressando na Cavalaria para a desonrar e a menosprezar!
No dia da Ordenação, convém que se cante missa solene, onde o Escudeiro deverá aproximar-se do Altar para ajoelhar-se diante do Sacerdote, que ali está representando Deus, e entregar-se à Ordem de Cavalaria para que possa através dela servir à Deus. E convém que se obrigue e se submeta a honrar e manter com todo o seu poder a Ordem da Cavalaria! Também convém que neste dia haja um Sermão, no qual se expliquem os Quatorze Artigos Fundamentais da Fé; Os Dez Mandamentos da Lei de Deus; os Sete Sacramentos da Igreja e o que mais for pertencente à Fé.
Tudo isso o Escudeiro deve manter bem guardado na memória, para saber combinar tudo aquilo que seja da Fé Católica, ao seu Ofício de Cavaleiro! Sobre o que foi mencionado anteriormente, mais o que for pertencente à Cavalaria, deve pregar o Sacerdote. E o Escudeiro que desejar ser Cavaleiro, deve rogar à Deus por sua Graça e Benção, a fim de que possa vir a ser por toda a vida, um servidor Dele.
Quando o Sacerdote tiver terminado tudo o que concerne ao seu Ofício convém então, que o Príncipe ou Alto Barão, que quer fazer do Escudeiro um Cavaleiro, tenha em si mesmo a Virtude da Cavalaria, para que possa, pela Graça de Deus, dar Virtude e Ordem ao Escudeiro que as queira receber; mas se o Cavaleiro em si mesmo não é bem ordenado e virtuoso, não poderá dar o que não tem, e será de pior condição que as plantas, que têm virtude de dar a sua Natureza umas às outras, e o mesmo acontece com os animais e as aves.
O Cavaleiro malfeitor que quer desordenadamente fazer multiplicar sua Ordem, injúria faz à Cavalaria e ao Escudeiro; e daquilo pelo qual ele deveria ser desfeito quer fazer o que não é conveniente que se faça. E é pela falta destes Cavaleiros que acontece algumas vezes do Escudeiro que recebe a Cavalaria não ser tão auxiliado pela Graça de Deus e nem pela Virtude da Cavalaria; por isto é insensato qualquer Escudeiro que receba a Cavalaria por tais Cavaleiros!
O Escudeiro deve ajoelhar-se diante do altar e levantar para Deus os seus olhos corporais e espirituais, erguendo suas mãos. E o Cavaleiro deve cingir-lhe a espada, para significar Castidade e Justiça. E como significado de Caridade, deve beijar o Escudeiro e dar-lhe uma bofetada, para que este se lembre do que prometeu e do grande Cargo a que fica obrigado, e da Grande Honra que recebe pela Ordem de Cavalaria.
Depois que o Cavaleiro Espiritual e o Cavaleiro Terreno tenham cumprido o seu Ofício de fazerem um novo Cavaleiro, este deverá cavalgar e mostrar-se às pessoas, para que todos saibam que ele é um Cavaleiro e que se obriga a manter e a defender a Honra da Cavalaria; porque quanto mais pessoas souberem da sua ordenação à Cavalaria, maior refreamento terá o novo Cavaleiro em fazer qualquer falta que seja contra a sua Ordem. Neste dia deverá ser feita uma grande festa, com cavalgadas e combates e tudo o mais que seja próprio das festas da Cavalaria. E o Senhor que o armou deve dar-lhe presentes, como ele também deve presentear os Cavaleiros que ali se encontrem.
O novo Cavaleiro deve ser generoso neste dia, porque quem recebe tão grande dádiva como é a Ordem da Cavalaria, a desmente se não der conforme recebeu.