Os
homens que primeiro colonizaram as ilhas britânicas vieram do
continente europeu assim que o clima tornou-se temperado. Vieram a pá,
já que o Canal da Mancha, a não ser por um córrego, não passava
de chão seco e o Mar da Irlanda era apenas uma fração do que é
hoje. Uma referência a este fato é encontrado na coleção de
contos galeses Mabinogion, apesar de escrito apenas depois do século
X. No conto Branwen, Daughter of Llyr ("Branwen, Filha de Llyr")
tem a seguinte informação: "Nós navegamos para a Irlanda, e
naqueles dias a profundidade da água não era grande." A
quarta e última glaciação destruiu esses primeiros colonos e quem
os havia acompanhado: renas, ursos e cavalos selvagens. Em 2000 aC,
os celtas se fixaram nas ilhas, trazendo com eles a sua cultura e a
arte de se fazer armas de bronze. Faziam intenso comércio com o
continente, conforme os vestígios deixados na planície de Salisbury, onde foi achado vinho e óleo italianos, ouro irlandês,
âmbar do Báltico e contas de vidro azul do Egito. Na planície de
Salisbury, ergueram, entre os anos de 1800 e 1400 aC, Stonehenge,
sem nenhuma ajuda mecânica. Era uma estrutura composta de um círculo
com 81 blocos de arenito, alguns pesando 30 toneladas, dentro deste
círculo, um outro, de pedras azuis, provenientes dos Montes
Prescelly, no País de Gales, dentro deste segundo círculo, pares
de pedras formando uma ferradura, cada uma apoiando uma verga
atravessada e dentro desta uma outra ferradura de pedras azuis,
todas unidas por vergas. Acredita-se que servia como um Templo do
Sol, marcava os solstícios de verão e de inverno, mas, seja para
quais deuses Stonehenge tenha sido erigida, esta antiga e
desconhecida religião foi completamente substituída pela dos
druidas, que mantinham forte autoridade na Gália e convertaram os
habitantes da Bretanha e construíram a cidadela de Anglesey. Alguns
dos celtas construíram nas colinas grandes fortificações
circulares enquanto outros que viviam em lugares pantanosos construíram
vilas, tendo lagos como proteção. Por volta de 50 aC, um novo
grupo invasor apareceu destruindo e pilhando, passando pelo vale Tâmisa
a caminho de Somerset, os terríveis belgas, provenientes do norte
da Gália e oeste da Germânia. Quatro anos mais tarde, Júlio César
decide que a ilha se tornaria posseção romana.
A Bretanha Românica
A primeira expedição militar romana à Bretanha
não foi bem sucedida. As tempestades de verão próximas à costa
destruíram e rechaçaram muitos dos navios-suprimentos e o
transporte da cavalaria. Mas, no ano seguinte, conseguiram
desembarcar uma tropa de invasão ainda maior que a do ano anterior.
Os compromissos de César impediram-no de controlar por completo a
Bretanha. Isto só foi conseguido em 43 dC pelo imperador Cláudio.
Suas forças desembarcaram em Richborough, na costa de Kent, onde
ergueram um monumento de mármore para comemorar a conquista. A Pax
Romana não era apenas conseguida com a superioridade militar dos
romanos, mas também com uma extrema crueldade. O povoado de
Anglesley, dos druidas, era conhecido como um pólo disseminador de
ódio, malevolôncia e inimizade, influenciando as tribos galesas
dissidentes.
Em 59 dC, o governador Suetônio Paulino mandou esmagar
primeiramente os druidas para depois perseguir os galeses. Massacrou
os sacerdotes e derrubou os bosques sagrados, desencadeado uma nova
série de eventos: Boadiceia, viúva de Prasutogo, rei dos icenianos,
foi ultrajada pelos oficiais romanos que vieram reclamar a parte do
imperador da herança do morto. A rainha foi açoitada e suas filhas
violentadas. Boadiceia, então, uniu-se com seu exército a uma
outra tribo descontente e marcharam sobre a cidade de Colchester que
foi arrasada e seus habitantes romanos mortos. Boadiceia derrotou
ainda a Nona Legião e incendiou Londres antes de ser destruída por
Suetônio. Mas o perigo maior aos romanos vinha do norte, dos pictos
e dos escotos. No governo de Adriano, 117-138 dC, foi construída
uma muralha de pedra, de Solway a Tyne, com 76 km de extensão por 5
metros de altura para manter afastados os bárbaros do norte. Os
romanos trouxeram consigo o seu panteão de divindades. Assim,
coexistiram divindades célticas com romanas. Já a religião cristã
foi introduzida na Bretanha provavelmente no século II dC.
Diz a tradição que José de Arimatéia desembarcou, em torno de de
60 dC, em Somerset com doze companheiros que ali construíram uma
pequena igreja de argamassa, a vestus ecclesia, inquestionavelmente
um dos primeiros santuários da Bretanha, posteriormente anexada a
Glastonbury e destruída pelo fogo em 1186. Para todos os efeitos, o
cristianismo consolidou-se na Bretanha em torno de 200 dC. Quem
permitiu isso foi Constantino III, o Grande, eleito imperador pelo
exército romano da Bretanha. Constantino e seu exército marcharam
sobre Roma e, como os romanos, utilizaram seus cavalos apenas como
transporte de carga, mas, assim que seu exército transformou os
cavalos de carga em cavalaria de combate, os cavalos montados lançaram-se
como projéteis sobre as linhas inimigas. Isso tornou-se possível
pela adoção do estribo dos persas pelos romanos. Antes do século
V, introduziriam ainda outro equipamento persa, a catafracta, com a
qual cavalo e cavaleiro se protegiam. Consistia de um traje de
malha, de argolas metálicas entrelaçadas, que se manteve em uso até
o século XIV, quando foi substituído pela couraça completa. Com
as ameaças dos bárbaros às fronteiras do império, Roma tinha
maior dificuldade em fornecer legiões para defendê-la e repelir as
invasões dos saxões. Entretanto, em 368, os romanos enviaram uma
força da Gália comandada por Teodósio, acompanhado por seu filho
Teodósio e um amigo de seu filho, Magno Clemente Máximo. Esta força
expulsou os saxões e reconstituiu o governo local graças à
cavalaria, apesar de serem numericamente inferiores aos invasores.
Quando, mais tarde, os romanos foram derrotados pela cavalaria dos
godos, em Adrianópolis, Roma convocou o jovem Teodósio e o fez
primeiro oficial, comandante da cavalaria do Império e imperador do
oriente. Máximo, amigo de Teodósio, permaneceu na Bretanha,
expulsando os pictos e os escotos. Com a admiração dos seus
soldados, selecionou a maior parte de sua tropa e marchou sobre
Roma. Porém, dois anos mais tarde, seria morto por seu melhor
amigo, Teodósio, em batalha. Apesar de deixar a Bretanha sem proteção
e ter conseguido apenas um sucesso passageiro, Máximo fez jus aos
contadores de histórias celtas por ter conquistado Roma. Com seu
nome adulterado para Macsen, figura em uma das narrativas da coleção
de história galesas, o Mabinogion, cujo registro é provavelmente
posterior aos ali descritos. Interessante notar que as conquistas de
Máximo devem ser responsáveis pelas conquistas extraordinariamente
aumentadas de Artur. No texto de Malory, Artur, para invadir Roma,
convoca tropas de Alexandria, Índia, África, Egito, Damasco,
Damieta, Capadócia, Tarso, Turquia, Panfília, Síria e Galácia.
Esta convocação lembra a linha de combate do imperador do oriente,
Teodósio, registrada pela memória de um soldado pertencente à
legião de Máximo.
A
Bretanha Bretã
A efetiva dominação romana da bretanha desapareceu com Máximo. É
claro que a imponente fachada ainda se manteve, com as ricas mansões
dos chefes celtas do sul com suas propriedades trabalhadas por
escravos. Mas agora conviviam com pequenos grupos de colonos saxões
para quem a terra era rica, pouco habitada e com muito espaço
disponível. Com o enfraquecimento da autoridade romana, Os ricos
proprietários de terras passaram a sonegar impostos, aumentando
assim o luxo e bem-estar a seus lares. Já nas zonas urbanas, a ausência
de autoridade fez com que as cidades decaíssem. As cidades não
foram novamente fortificadas, mas, pensando em sua autoproteção,
os bretões adaptavam as extensas trincheiras existentes, construídas
centenas de anos antes. Em 395, houve outra invasão bárbara, feita
pela Alinça Bárbara, entre pictos, escotos e saxões. Para
defender a Bretanha, Roma enviou um outro brilhante general de nome
Estílico, que expulsou os invasores. Mas Estílico não pode manter
a paz, já que teve que partir para lutar contra os godos. Em 407,
no entanto, um subordinado desconhecido foi eleito Imperador pelos
soldados que permaneceram na Bretanha só porque tinha o mesmo nome
que Constantino, o Grande. Os soldados parte em marcha sobre Roma,
mas são derrotados pelo Imperador Honório. Os bretões, sob ameaça
de uma nova invasão, escrevem ao imperador pedindo proteção, mas
este ordena luterem por conta própria. Em 410, Alarico, o Godo,
saqueia Roma. Isto abre caminho para outras invasões bárbaras na
Europa. Apesar de Roma ter se recusado oficialmente a colaborar com
os bretões, há provas de que os romanos enviaram mais uma expedição
de ajuda à Bretanha. O monge e historiador celta do século VI,
Gildas, sobre as operações militares de Teodósio e Estílico, dia
que elas pertenceram ao Terceiro Salvamento. Em 429, no século V, a
essência do poder romano mudaria e, sob novos auspícios, enviaria
uma nova expedição à Bretanha. O imperador romano, intitulando-se
Pontifex Maximus, exigia a prática de adoração a sua figura. O
bispo de Roma, durante a época de saques em Roma, também adotaria
esta denominação, reinvidicando para si a autoridade sobre todas
as ramificações da Igreja Cristã. Para estabelecer a supremacia
da religião cristã, era necessário manter uma uniformidade
absoluta na fé. Desta forma, heresias deveriam ser reprimidas de
qualquer forma. O monge celta Pelágio negava a doutrina do pecado
original, cuja idéia teve aceitação entre os cristãos da
Bretanha, e o bispo de Auxerre seguiu em missão para combater a
heresia. A missão era de cunho pastoral, mas a sua chegada
coincidiu com a invasão de Flintshire, liderada por pictos e
escotos.. Apesar de Germano estar ali como bispo, era também um
soldado veterano, assim, se ofereceu para conduzir a defesa. Ele
posicionou as suas tropas em um vale onde passava um rio. Enquanto o
inimigo passava pelo desfiladeiro aparentemente deserto, Germano,
surgindo por trás deles, gritou: "Aleluia" e ergueu sua
cruz. Os bretões, que estavam de tocaia, repetiram
"Aleluia" em ressonância, aterrorizando o inimigo, que,
assustado, bateu em retirada. O rio, onde eles normalmente poderiam
passar sem dificuldades, tornou-se uma armadilha mortal. Aqueles que
não morriam em batalha, morriam afogados. Esta batalha associada a
um líder cristão foi básica para delinear a imagem de Artur. Em
425, Vortigern, o mais poderoso dos reis britânicos locais, reinava
do País de Gales ao sudeste da Bretanha. Tinha quatro grandes
adversários reais e em potencial: os pictos, que viviam além das
Muralhas de Adriano e de Antonino e que estavam sem defesa militar;
os escotos, que atacavam a partir do País de Gales; os saxões que
ameaçavam do sudeste; e uma facção dos romanos-britânicos cujo
primeiro objetivo era a restauração das leis romanas e o segundo
era esmagar todo e qualquer líder nativo ou bárbaro. Vortigern
decidiu, então, aliar-se a um deles para lutar somente contra três.
Aliou-se com os saxões, dando-lhes terras e apoio em troca de serviços
militares. Os chefes saxões Hengist e Horsa propuseram retornar ao
continente com seus navios e trazer do mar do Norte outros
compatriotas que defenderiam o rei contra todos os seus inimigos.
Das tribos germânicas que vieram com Hengist e Horsa, algumas eram
de jutos e outras de anglos. Por oito anos os saxões cumpriram seu
trato, mas com tamanha brutalidade que os tornaria abomináveis.
Vortigern casou-se com Rowena, filha de Hengist, cuja a extrema
beleza desculpava casamento tão inconveniente. Os saxões fizeram o
trabalho com tal vigor que os seus serviços já não eram necessários.
Quando lhes disseram que agora poderiam viver nas terras a eles
concedidas, todo o condado de Kent, q ue seu pagamento a partir de
então cessaria, seu ressentimento não teve tamanho. O problema era
que, além do grande número que havia chegado, eles mandavam buscar
as famílias de seus parentes e se reproduziam com extraordinária
rapidez. Em 442 ultrapassaram os limites de seu território e
lutaram contra o exército de Vortigern, na terrível mas não
decisiva Batalha de Aylesbury. Desse confronto partiram para a
pilhagem e matança desenfreadas. Alguns bretões refugiaram-se na
Armórica, outros tantos morreram nas mãos assassinas dos saxões
ou viveram em suas casas em ruínas como animais famintos.
Esse massacre e essa destruição ocorreu durante os chamdos Anos
Negros, uma época descrita apenas por fragmentos, muito tempo após
o acontecido, com apenas uma excessão: Gildas, que no início do século
VI escreveu seu Liber querulus (Livro das Querelas) ou Book of
Complaints on the Destruction and Conquest of Britain (Livros das
Querelas sobre a Destruição e Conquista da Bretanha), um relato
cheio de ressentimento pessoal, mas também com abundantes informações
históricas. O livro raramente menciona algum nome e a motivação
principal era a lamentação pela triste retirada dos romanos e a
execração de Vortigern por ter aberto as portas aos saxões. Em
meio ao horror e destruição causados pelos saxões, um foco de
resistência se formava. Ambrósio Aureliano é um dos poucos
personagens citados por Gildas, "único sobrevivente de uma família
romana". Ele o descreve como um típico soldado romano:
modesto, forte e cheio de fé. Era um homem de cavalaria e "os
bretões corriam como um enxame de abelhas em direção a ele, como
um enxame de abelhas temendo uma tempestade que se aproxima. Lutavam
na guerra tendo Ambrósio como líder", dizia Gildas. E o
primeiro ataque de Ambrósio não seria contra os saxões e sim
contra Vortigern, considerado traidor de seu país, cujo último refúgio
foi um castelo em Flintshire. Ambrósio pôs fogo no castelo e
Vortigern morreu em batalha. O novo líder, para mostrar sua
autoridade no oeste, permitiu então que o filho de Vortigern
recebesse permissão para reinar sobre parte do reino de seu pai.
Logo após, Ambrósio dirigiu-se para o sudeste. Parecia um beco sem
saída a luta entre as duas civilizações. Se era impossível
mandar os saxões embora, impedia-se pelo menos o seu avanço. Em
488, Ambrósio persegue Hengist no nordeste e mata o chefe saxão em
batalha. Os saxões, no entanto, eram invencíveis no seu último
reduto. Os bretões continuaram com uma forte ação defensiva
contra os saxões e tiveram então um segundo comandante, cuja fama
confirmou-se universal e imortal.
Avalon
O
Túmulo de Artur
Avalon, chamada de Avilion por Malory, surgiu pela primeira vez na
história de Artur através de Godofredo de Monmouth. Godofredo
juntou uma miscelânea de tradições com relação à sobrevivência
de Artur e ao lugar de refúgio: tanto para britânicos, bretões ou
galeses, o lugar é sempre um paraíso cercado de água, localizado
na região costeira, que se chamava Avalon. E disse: "O
renomado rei Artur, gravemente ferido, foi levado para a ilha de
Avalon, para a cura de suas feridas, onde entregou a coroa da
Bretanha a seu parente Constantino, filho de Cador, duque da
Cornualha, no ano de 542 do Nosso Senhor". Mais tarde, no livro
Life of Merlin, Godofredo descreve o lugar como uma ilha fantástica,
habitado por nove damas, uma das quais a sua irmã, a fada Morgana.
Grande é a associação de Glastonbury com Avalon. A grande abadia
de Glastonbury foi fundada no século V. A seu lado havia uma
pequena igreja, muito antiga, de paredes de taipa, que se dizia ser
o primeiro santuário construído na Bretanha, e, assim, associado a
José de Arimatéia, que teria trazido o Santo Graal para a
Bretanha. Em 1184, um incêndio destruiu a pequena igreja, bem como
a maioria dos prédios da abadia. Um programa de reconstrução foi
então iniciado por Henrique II, mas, como demandava somas intensas,
era necessário alguma coisa para atrair peregrinos com suas bolsas.
Giraldus Cambrensis, um galês de ascendência parcialmente
normanda, produziu então, entre 1193 e 1199, um obra intitulada De
Principis Instructione, na qual registra que Artur teria sido um
benfeitor da abadia e que teria sido na verdade enterrado nela, já
que seu corpo fora encontrado em 1190. Jazia entre duas pirâmides
de pedra que marcavam os locais de outros túmulos, a 5 metros de
profundidade, envolvido em um tronco de árvore oco.
Do lado de baixo do tronco que servia de caixão, havia uma pedra e
abaixo dela uma cruz de chumbo na qual estavam gravadas as seguintes
palavras em latim: "Aqui jaz enterrado o renomado rei Artur com
Guinevere, sua segunda esposa, na ilha de Avalon". Dois terços
do caixão eram ocupados por um homem de tamanho incomum e o
restante por ossos de uma mulher, juntamente com uma trança de
cabelos loiros que virou pó ao ser tocada por um monge. A tal
descoberta teve o sucesso que interessava e Glastonbury tornou-se
uma atração turística.
Godofredo de Monmouth dissera que Artur fora levado embora,
mortalmente ferido, para a ilha de Avalon. A partir do momento que
os ossos de Artur teria sido encontrados em Glastonbury, junto com a
cruz funerária que dizia que ele teria sido enterrado em Avalon,
Glastonbury tornou-se sempre Avalon. Guilherme de Malmesbury, em sua
Gesta Regum Anglorum (Gesta do Rei dos Anglos), de 1125, apenas
menciona o fato de os britânicos chamarem Glastonbury de Inis
Witrin, a Ilha de Vidro. Caradoc de Lancafarn, em sua Life of Gildas,
de 1136, repetiu que os britânicos a chamavam de Ynis Gutrin, Ilha
de Vidro. Giraldus Cambrensis e Ralph, abade de Coggeshall, em sua
Chronicon Anglicanum (Crônica Anglicana), foram os dois primeiros
escritores a dizer que Glastonbury era Avalon.
O Reino de Camelot
Lenda
e Arqueologia
Camelot
seria o reino onde Artur estabelecera sua corte, mas onde ficava
Camelot e de onde teria surgido este nome? Supõe-se que o nome
Camelot, referindo-se à suposta capital de Artur, tenha sido dado
pela primeira vez, no século XII, pelo romancista francês Chrétien
de Troyes. Não há nenhuma garantia histórica sobre a existência
de tal capital e essa idéia só entra na história depois que o
general Artur se transformou mitologicamente na figura do rei.
Acredita-se que Camelot seja uma corruptela francesa para
camalodunum, nome romano de Colchester. Em 1542, um antiquario
chamdo John Leland visitou a colina de Cadbury, em Somerset, que os
habitantes chamavam de Palácio de Artur, e ficou realmente
convencido de que lá ficava a Camelot de Artur, o que levou a chamá-la
de Camelot e interpretar erroneamente o nome da vila vizinha de
Queen's Camel, dizendo que originalmente poderia ter-se chamado
Queen's Camellat. Essa associação infeliz ocultou as prentenções
de cadbury ser a verdadeira fortaleza de Artur. Cadbury, próxima a
Glastonbury, é um monte de 75 metros de altura cujo topo se estende
por 8 hectares.
O monte é cercado por quatro elevações, uma acima da outra,
remanescentes de antigas obras de defesa. Em 1960, provou-se que o
local foi habitado entre 500 e 400 a.C.; que os romanos a
encontraram ocupada, massacraram alguns de seus habitantes e
removeram o restante para o nível do solo; e que mais tarde
desmantelaram o forte e aplainaram o topo da colina. Outro estágio
das escavações arqueológicas revelou que a colina havia sido
refortificada em 470 d.C., fato provado pela presença, nos muros e
pilares, de fragmentos de cerâmica do estilo Tintagel do século V.
Os locais foram sugeridos para a capital de Artur, como
Caerlon-on-Usk, no País de Gales, mostrado nos textos de Godofredo
de Monmouth. O patrono de Willian Caxton, que editou a versào de
Malory da lenda de Artur, afirmava que existia uma cidade de Camelot,
no País de Gales, que parecem ser os remanescentes romanos de
Caerleon. Já Malory identificava Camelot como sendo a atual
Winchester. No entanto, parece que as maiores evidências são para
a Colina de Cadbury como a fortaleza de Artur, já que esta servia
perfeitamente como quartel-general para alguém queestivesse lutando
no sudoeste da Inglaterra, em uma batalha travada no perímetro da
planície de Salisbury.
Fatos e Mitos
Os Anais da Páscoa
A história do Rei Artur e seus cavaleiros é realmente apaixonante,
tanto que no século XII ainda havia derramamento de sangue de bretões
e ingleses, sendo que os primeiros lutavam em nome de Artur. Mas
quem foi Artur? Ele realmente existiu? Se existiu, por que toda sua
história está envolta em lendas e sem conteúdo histórico? O mais
empolgante é descobrir que Artur realmente existiu. Como a Páscoa
é uma festa móvel, era necessário fazer cálculos para saber
quando cairiam as próximas festas, nos anos seguintes. Essas
tabelas de cálculos, existentes em várias abadias, eram chamadas
de Tabelas da Páscoa. Eram organizadas em colunas, sendo que a
coluna da mão direita era deixada em branco. Nela eram anotados os
eventos de importância relevante. Os itens desta coluna eram
chamados de Anais de Páscoa. É comumente aceito que a data do
manuscrito que continha os anais é consideravelmente mais velha que
os eventos anotados nela; mas os especialistas concordam que, quando
novas tabelas de cálculo eram feitas, os principais eventos das
tabelas anteriores eram transcritos para as mais novas. No Museu
Britânico há um maço de documentos conhecidos como Historical
Miscellany (Coletânea histórica) que contém um conjunto de
tabelas de Páscoa. Em suas colunas de anais ocorrem dois registros:
O primeiro tem sua data discutida, já que o copista teria datado os
registros a partir do ano em que se iniciaram os anais, que pode ser
499 ou 518 d.C. Está escrito: "Batalha de Badon, na qual Artur
carregou nos ombros a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, por três
dias e três noites, e os bretões foram vitoriosos". No
segundo registro de 539, lê-se: "Batalha de Camlann, na qual
Artur e Modred morreram. E houve pragas na Bretanha e Irlanda".
O argumento que mais demonstra se tratar de uma evidência histórica
é que também Gildas mencionou a Batalha do Monte Badon, cuja ocorrência
registrou a mesma data do seu nascimento, descrevendo-a como "a
última matança do inimigo, depois do que, durante toda a sua vida,
teria sido refreado o avanço saxônico no sudeste e no
sudoeste". Além disso, em uma conhecida história marcada por
ausência de nomes próprios, Gildas, apesar de não falar no nome
de Artur, cita o nome da batalha, atribuindo-lhe importância
singular. Os anais dizem que Artur lutou por três dias e três
noites, o que é verossímil, pois Gildas chamou essa batalha de
cerco obsessio Badonici. O fato de Artur ter carregado a cruz nos
ombros explica-se pela possível troca de palavras shield (escudo)
por shoulder (ombros). A localização da colina chamada Badon é
controvertida, mas supõe-se que deva estar localizada além de Kent
e Essex, na rota do avanço saxônico. É a partir desta batalha que
a penetração anglo-saxônica proveniente do sudeste se interrompe,
quando já tinha atingido as fronteiras da planície de Salisbury,
em Berkshire e Hampshire, reiniciando somente meio século mais
tarde. Não é sabido se Artur e seus guerreiros atingiram o topo ou
se foram os sitiantes; de qualquer modo o resultado foi o massacre
dos saxões. Essa referência e aquela em que tanto Artur como
Modred morrem na Batalha de Camlann foram os profundos alicerces com
os quais se ergueu a elevada e bem estruturada fama de Artur.
A
Historia Brittonum
Em segundo lugar, em importância como documento histórico, é a
coleção do monge galês Nênio, da metade do século VIII, onde,
segundo ele, agrupou tudo aquilo que havia encontrado nos anais
romanos, os escritos dos santos padres e a tradição dos sábios.
Esta coleção faz parte da Historical Miscellanny e é conhecida
como Historia Brittonum (História dos Bretões). Começa com a
recapitulação de outros trabalhos, inclusive o cálculo das seis
era do mundo, iniciando com o Dilúvio; a seguir vem o que é
chamado de seção independente, informações das quais Nênio foi
a única fonte. Relata a carreira de Vortigern e o estímulo dado
aos saxões. Nênio conta a história da descoberta, feita por
Vortigern, de um menino clarividente, chamado Ambrosius, cuja mãe
confessa ter sido ele gerado por um íncubo. Esse menino diz que o
castelo que Vortigern se esforça tanto para construir não ficará
em pé e avisa-lhe para drenar o poço que ele encontrará debaixo
de suas fundações. Assim que for esvaziado, nele se descobrirão
dois dragões: um vermelho e outro branco, que lutarão entre si.
O branco vence o vermelho e o menino diz que a luta prediz a vitória
saxônica sobre os bretões. Depois dessa fábula vem uma passagem
que, apesar de ter sido escrito muito tempo depois, será tão
preciosa quanto os registros dos Anais da Páscoa. Inicia indicando
uma data: "Depois da morte de Hengist, seu filho Octha,
proveniente do norte da Bretanha, fixa-se em Kent, de onde inicia a
dinastia dos reis de Kent". A ascensão de Octha, sob o nome de
Aesc, ocorreu em 488, de acordo com a Crônica Anglo-Saxônica. Nênio
continua: "Então, naqueles dias, Artur lutou contra eles junto
com os reis bretões, tendo sido o líder das batalhas". Isto
mostra que, após a retirada dos romanos, muitos reis, soberanos de
pequenos reinos britânicos, uniram-se contra os saxões, sendo
Artur comandante-geral das tropas combinadas. Não foi somente Nênio
que afirmou que Artur não foi um rei propriamente dito; em outro
capítulo do livro The Marvels of Britain (As maravilhas da
Bretanha), ele o chama de um simples soldado, ou miles; Nênio fala
ainda de Cabal, o cachorro, e do túmulo de Anwr, filho de Artur, o
soldado. A próxima passagem é rápida e misteriosa; é uma lista
das doze batalhas onde Artur lutou, das quais apenas duas são passíveis
de identificação. Nênio diz que a primeira batalha ocorreu no rio
Glen, que pode ser tanto em Northumberland como em Lincolnshire. A
segunda, a terceira, a quarta e a quinta batalhas aconteceram no rio
Dubglas, in regio Linnus, o que pode significar Lindsey, em
Lincolnshire. A sexta foi em Bassas, nome que não foi traduzido. A
sétima foi a Batalha de Caledonian Wood, que se acredita ser uma
floresta em Strathclyde. O A oitava foi na Tor Guinnion, lugar que não
foi identificado geograficamente, mas é assinalado pela narração
de que ali Artur teria carregado nos ombros a imagem da Virgem
Maria, por cuja virtude e pela de Jesus Cristo, os pagãos teriam
sidos expulsos. A nona ocorreu na cidade de Legion, nome romano de
Chester.
A décima foi na praia de Tribuit; a décima primeira, na montanha
de Agned; e a décima segunda no monte Badon, e foi aí que Nênio
disse que tinham caído novecentos e sessenta em um violento ataque
desfechado por Artur. Apesar de não ser possível delinear com
exatidão onde ocorreram, parece que as batalhas ocorreram em uma área
ampla, que ia de Strathclyde, no noroeste oriental, talvez até
Northumberland ou, mais para o sul, até Lincolnshire; de Chester no
oeste até algum lugar no sudoeste, onde o combate do monte Badon
culminaria com uma vitória definitiva, estabelecendo, por fim, cinqüenta
anos de paz.
Primeiros Contos Arturianos
A Difusão da Lenda
Como a história de um comandante que lutava para restringir o avanço
saxônico em uma pequena região da Bretanha conseguiu atingir tal
grau de popularidade na Europa? Este fato deve-se principalmente aos
contadores de histórias bretões. Pelo excessivo número de bretões
que se refugiaram na Armórica, esta passou a se designar Britânia
ou Pequena Bretanha e entre este povo as histórias e lendas bretãs
se mantiveram vivas através da tradição oral.
As baladas bretãs são citadas pela primeira vez pelos romancistas
franceses do século XII e tinham como objetivo entreter os chefes e
suas famílias. Os bardos, contadores ou recitadores de contos heróicos,
para terem sucesso, precisavam, primeiramente, de uma boa fábula
para contar, depois precisava de memória, uma boa capacidade dramática
para a representação, além, é claro, da receptividade emocional
dos ouvintes. Qualidades comuns entre os celtas.
Na catedral de Modena, sobre o arco do portal norte, encontra-se uma
impressionante prova de como foi a difusão da lenda propagada pelos
bardo: em um friso semi-circular, uma mulher é retratada em uma
torre ladeada por um fosso e seis cavaleiros avançam, três de cada
lado. Na figura feminina está inscrito Winlogee, em três dos
protetores da torre aparecem os nomes de Burmaltus, Mardoc e Carrado
e em um dos cavaleiros que avançam está inscrito Artus de Bretani.
Loomis diz que o nome Winlogee seria uma forma de transição entre
o nome bretão Winlowen e o francês Guinloic. Esta é a mais antiga
referência a Guinevere na história de Artur. Presume-se que esse
entalhe ilustre a expedição que Artur fez para salvar Guinevere
quando foi raptada por Modred, filho de Artur, e mantida por ele em
uma torre, quando Artur combatia Lancelot longe dali. Essa história
é citada no que se supõe ser uma biografia de Gildas escrita por
Caradoc de Lancafarn na primeira metade do século XII. Julga-se que
o entalhe do pórtico da catedral deva ter sido feito entre 1099 e
1120.
A Transformação em Rei
Foi no começo do século X que Artur, na
imaginação popular, transformou-se de comandante em rei. No poema
dalês sobre a batalha de Llongborth, Artur é chamado de imperador.
No entanto, o poema é posterior ao fato, já que, se ele tivesse
sido feito na época de Artur, deveria ser feito em bretão e não
em galês. É provável que se trate de uma reconstrução galesa de
um poema bretão, composto não muito depois da batalha, no século
V.
A mais famosa história galesa, Culwych e Olwen, do final do século
X, mostra a transição na posição de Artur; ele ainda não é
chamado de rei, mas é mostrado como um poderoso líder, presidindo
sua corte com poderes sobrenaturais. Já no século XII é chamado
de imperador em outro famoso conto galês, The Dream of Rhonabwy.
Esses dois contos fazem parte do Mabinogion, onde estão dois
manuscritos, um escrito entre 1300 e 1325, conhecido como o White
Book of Rhydderch (Livro Branco de Rhydderch), e outro escrito entre
1315 e 1425, Red Book of Hergest (Livro Vermelho de Hergest),
quatrocentos anos mais tarde que Culwych and Olwen e talvez duzentos
mais tarde que The Dream of Rhonabwyn.
Godofredo de Monmouth
Em 1135 havia um novo Artur diante do
mundo: um soldado profissional, rei coroado, famoso por sua
generosidade e seu exemplo cavalheiresco, estabelecido em uma corte,
não em um anônimo reino fantástico, mas na real cidade de
Caerleon-on-Usk. Alguém que presidia torneios em seu país e que,
no exterior, em vez de tomar parte em ridículas aventuras, em
contos populares, realizava conquistas fantásticas, anexando a Escócia,
a Irlanda, a Noruega, a Dinamarca e a Gália, e que só foi chamado
de volta durante o ataque a Roma devido a uma insurreição traiçoeira
em seu país. O sucesso obtido pela Historia Regum Britannie, de
Godofredo de Monmouth é quase tão interessante quanto à própria
história de que trata. Seus duzentos manuscritos já eram
conhecidos antes do fim do século XII na França, Espanha, Itália,
Polônia e Bizâncio. Godofredo de Monmouth era um monge bretão ou
galês nascido em Monmouth, e escolheu situar a corte de Artur na
cidade de Caerleon, construída perto de ruínas romanas, a trinta
quilômetros de sua terra natal. Ele tinha técnica para escrever, o
que o habilitava a juntar lendas já conhecidas e estimadas e
apresentá-las em um conjunto compacto e brilhante; apesar de dizer
que estava escrevendo sobre fatos históricos, registrava, em função
do seu interesse, o que sabia serem mentiras, atribuindo-lhes grande
aparência de convicção; acima de tudo, escolhia um rei britânico
ou rei qualquer da Historia que mais pudesse interessar aos leitores
e ouvintes. O desfilar começa com o mitológico Brutus, que veio de
Tróia para colonizar a Bretanha, e termina com o mitológico
Cadwallo. Fala de noventa e nove reis ao todo, e um quinto do
trabalho é dedicado à história imaginária de Artur. Talvez não
tivesse inventado muito; adaptou lendas existentes, acrescentando
alguns fatos inatacáveis, apresentando-os como fatos históricos.
Sua contribuição para a história de Artur foi a afirmação de
que ele era filho de Uther Pendragon, que governava Caerleon-on-Usk,
que seu primeiro-ministro era Merlin e que foi conduzido para a ilha
de Avalon, quando ferido mortalmente. Loomis mostra que Godofredo
descobriu um lenda galesa sobre um vidente chamado Myrddin. E que
encontrou em Nênio uma história sobre um menino vidente chamado
Ambrosius que profetizara a Vortigern a sua destruição e a vitória
dos saxões. Assim, identificou esse menino como Merlin. Isso trouxe
Merlin à órbita de Ambrósio Aureliano, estabelecendo uma ligação
entre Merlin e Artur, já que dizia que Ambrósio Aureliano era irmão
de Uther Pendragon.
Loomis afirma que Godofredo haveria encontrado uma lenda córnica
sobre Artur sendo fecundado na terra de Tintagel por Uther Pendragon
e Igerna, a pudica e bela esposa de Gorlois, duque da Cornualha.
Isto aconteceu através dos poderes mágicos de Merlin, que deu a
Uther a aparência do duque de Gorlois, enganando a ingênua esposa,
com quem se casa depois de matar Gorlois em batalha.
Godofredo afirma que Artur e Modred lutaram um contra o outro e que
este forçou Guinevere a se casar com ele na Ausência de Artur.
Usando a tradição de Camlann (sem, no entanto, nomeá-la),
Godofredo diz que Artur perseguiu Modred na Cornualha até depois do
rio Camel. Nesse encontro, Artur teria sofrido um ferimento mortal,
sendo levado então para Avalon. Godofredo diz que Artur, quando
sucedeu Uther Pendragon, era um menino de quinze anos. Teria então
juntado um exército de jovens da sua confiança e saído para
libertar a Bretanha do jugo saxão. A Batalha de Badon, Godofredo
identifica com tendo ocorrido em Bath, dando nomes às partes da
armadura de Artur: o escudo Pridwen (confundido com o navio de mesmo
nome no qual Artur viajou para Annwyn), sua lança Ron e sua espada
Caliburn, embora dar nomes às espadas fosse uma prática antiga,
vigente até a Idade Média. A espada de Carlos Magno era chamada
Joyeuse e Godofredo diz, seja lá qual for a sua autoridade para
isso, que a espada de Júlio César era chamada de Morte Açafrão.
À vitória de Artur em Badon seguiu-se outra campanha na qual ele
venceu os irlandeses e os escotos, a quem resolveu destruir
completamente. Somente a intervenção dos bispos escotos é que se
poupou o restante da população. Selvageria semelhante ocorreu com
a Noruega, que só foi poupada quando submetida completamente a
Artur, bem como a Dinamarca. Depois da batalha contra os irlandeses,
casa-se com Guinevere, nascida de uma família romana nobre e a mais
bela da ilha. Logo depois ele decide invadir a França, onde a questão
é resolvida por um simples combate entre ele e o tribuno Flollo.
Pelos nove anos seguintes, Artur dedica-se à conquista da França,
destribuindo as terras entre os nobres da sua terra natal. Na
primavera, a paz voltava à Bretanha. Logo após, ele relata a coroação
e o casamento com Guinevere. O acontecimento seguinte foi a ordem do
imperador Lúcio Hibério cobrando de Artur um tributo da Bretanha.
A origem desse episódio explica-se pela modificação feita por
Godofredo em um episódio da tradição galesa, a guerra de Artur
com o chefe irlandês Llwich, the Irishman. Transformando um obscuro
chefe irlandês no imperador de Roma. Artur teria considerado um
insulto o tributo e assim parte para a conquista de Roma. Aluta com
o imperador ocorreu no outono, sendo que o imperador caiu por um
golpe de lança "de uma mão desconhecida". Artur ordenou
que o corpo fosse enviado ao senado romano com a mensagem de que
nenhum outro tributo seria pago pela Bretanha. Durante os
preparativos para o avanço sobre Roma, ele recebe a notícia de que
Modred, seu sobrinho deixado como regente, havia tomado a coroa e se
ligara com a rainha Guinevere. A volta de Artur levou à batalha de
Camlann, onde ele e Modred morreram, sendo levado para Avalon e
deixado a coroa para seu parente, Constantino. Guinevere, levada
pelo desespero, fugiu de York para Caerleon, onde, dali em diante,
levaria uma vida casta entre as freiras e acabaria por se ordenar.
Godofredo não fala nada sobre a Távola Redonda ou a Busca pelo
Santo Graal. Nem sobre as histórias de Lancelot ou Tristão. Sobre
Merlin, dedicou o Livro VII da Historia às "Profecias de
Merlin", onde as únicas profecias mesmo eram aquelas que
qualquer escritor de 1130 poderia colocar na boca de um personagem
do século VI. No entanto, as "Profecias" tiveram grande
impacto, sendo inclusive editadas em separado. Alguns anos mais
tarde, Godofredo escreve a narrativa em versos Life of Merlin (A
Vida de Merlin) onde o bardo galês Taliesin faz um relato mais
detalhado de como Artur teria sido carregado para Avalon, descrita
como ilha fantástica, habitado por nove damas, uma das quais sua
irmã, a fada Morgana (cujo nome parece vir da forma como os bretões
chamavam as fadas da água - Morgans).
Wace e Layamon
Wace, o Francês, nasceu em Jersey,
então parte do feudo da Normandia, em 1100, e, escritor, dirigia
sua obra "ao povo rico que possui rendas e moedas de prata,
pois é para eles que os livros são feitos". Sua mentalidade
era tipicamente francesa, cética e lúcida. A forma narrativa de
Wace era mais cortês que Godofredo, eliminando detalhes desnecessários
e diminuindo as atrocidades que Artur cometia em relação aos
pictos e escotos. Embora outros escritores e historiadores apenas
insinuem que Guinevere não tivera filhos, Wace afirma isso
categoricamente. No entanto, a única contribuição dele à lenda
escrita foi a Távola Redonda, que dizia que já era famosa e que não
fora invenção dele.
A história de Artur já havia sido contada em latim, galês e francÊs.
No reinado de Ricardo Coração de Leão, entre os anos de 1189 e
1198, Layamon, um padre de Arley Regis, em Worcestershire, fez em
versos a primeira apresentação de Artur em língua inglesa,
baseada na versão de Wace. Ele seguiu de perto o trabalho de Wace
e, através dele, de Godofredo de Monmouth, apresentando Artur como
um herói poderoso que derrotou os saxões. Godofredo era galês ou
bretão, Wace era francês, já Layamon era anglo-saxão, escrevendo
na língua dos anglo-saxões, e seu entusiasmo pela destruição das
hostes saxônicas era surpreendentes. A narrativa de Layamon era
mais seca e rústica, mostrando toda a violência contida no texto,
ao contrário de Wace. Também Layamon não demonstrava o ceticismo
de Wace. Aceitava o sobrenatural e ainda acrescentava aos prodígios
de Godofredo outros por conta própria. É estranho lembrar que a
versão de Layamon surgiu quarenta anos mais tarde que a de Wace, no
entanto, a deste último se apresenta mais bem acabada.
Artur, por Malory
A Lenda Imortalizada
Foi através do romance de Sir Thomas Malory que a lenda do rei
Artur se cristalizou e tomou a forma que conhecemos hoje. Malory,
segundo pesquisas recentes, fora acusado de uma série de crimes:
emboscada, roubo, estupro, roubo de gado e chantagem para extorsão
de dinheiro. Às vezes estes crimes foram atenuados, outras tantas
vezes negados, mas, se tudo tivesse sido provado, Malory não seria
nem o primeiro nem o único escritor cuja conduta teria sido
altamente anti-social. Diz-se que Malory foi um cavaleiro de York
que serviu, quando jovem, a Richard Beauchamp, conde de Warwick, e
que por algum delito, real ou suposto, foi preso pouco antes de
1462. Acredita-se ainda que, naquele ano, acompanhou Warwick em uma
expedição contra o exército que Margarida de Anjou recrutara na
Escócia e trouxera à Inglaterra, fazendo pilhagens pelo caminho.
Quando Warwick virou a casaca e se aliou a Lancaster, lutando contra
o exército de Eduardo IV em Barnet, acredita-se que Malory mudou de
lado também. Isto, se verdadeiro, explicaria porque, quando Eduardo
IV, em 1468, expediu dois indultos a cavaleiros que lutaram com
Lancaster, Malory não foi incluído.
Malory esteve na prisão provavelmente em 1468 e acredita-se que
tenha morrido neste local, pois foi enterrado na Igreja dos
Franciscanos, ao lado da prisão de Newgate. Também é provável
que tenha terminado o livro na prisão, pois no final da sua última
obra escreve: "Rogo a todos vocês, damas e cavalheiros, que
leiam este livro sobre Artur e seus cavaleiros, do começo ao fim, e
que rezem por mim enquanto estiver vivo. Que Deus me dê redenção
e, rogo-lhes, rezem por minha alma quando eu já estiver
morrido". Apesar de aborrecida, a prisão de Malory
permitiu-lhe escrever um dos maiores trabalhos sobre Artur na língua
inglesa. Uma ampla coletânea de diversas fontes - parte tradução,
parte adaptação -, que incluem versões metrificadas da história
arturiana: Morte Arthur (Morte de Artur), de Thornton, Arthour and
Merlin (Artur e Merlin) e a versão em estrofes de Le Morte Artu (A
Morte de Artur); mas a principal fonte foram as cinco histórias,
imensamente longas, do Ciclo Popular Francês (ou Ciclo Bretão).
Outras partes do trabalho do qual nenhum original foi encontrado são
consideradas de sua autoria. Como conseguiu acesso a uma biblioteca
para fazer suas pesquisas é um mistério. Confrontando-se o
original de Malory com a forma conhecida, pode-se notar uma grande
diferença estrutural. Isto revela o quanto o impressor mexeu na
obra.
William Caxton, que começou a vida como vendedor de tecidos,
fundou, em 1474, a primeira editora inglesa. Foi ele quem editou a
obra de Malory, Morte d'Arthur, por causa da persuasão de vários
nobres e cavalheiros que, segundo ele, perguntavam porque ele não
imprimia a história do famoso rei Artur. Após Caxton fazer a sua
versão, cujo manuscrito desapareceu, nenhum exemplar do texto de
Malory foi encontrado, apesar de parecer que tinham sido feitos vários
exemplares deste trabalho. Somente após a descoberta de um exemplar
do texto de Malory na Fellows' Libary, no Winchester College, em
1934, pôde-se demonstrar o quanto Caxton mexeu na obra original de
Malory.
Caxton disse que havia dividido o seu trabalho em vinte e um livros,
cada qual divididos em capítulos. E fez mais: disfarçou o fato de
que Malory havia escrito oito contos separados e independentes;
alterou a ordem na qual Malory os tinha articulado e omitiu todos os
finais escritos por Malory, exceto o últimos, com finalidade de
fazer com que o livro parecesse não uma coleção de histórias,
mas um todo homogêneo.
Bibliografia: ELIZABETH JENKINS. Os mistérios do Rei Artur - O Herói
e o mito reavaliados através da História, da Arqueologia, da Arte
e da Literatura. Ed. Melhoramentos, 1994. 208p.