S  e  x  t  a  n  t  e

 

Os gregos foram os primeiros a tentar explicar cientificamente o sistema solar. Naquela época, imaginava-se que a Terra era plana. No entanto, esta concepção foi substituída, com a fundação da escola pitagórica, pela criação de um modelo no qual a Terra era esférica e, em conseqüência, deu-se o primeiro grande passo para o estudo da astronomia grega.

No século V a.C. atribuíram à Filolau  ¾   médico e astrônomo grego de crotona  ¾   um sistema cosmológico no qual a Terra se deslocava no espaço como os outros astros. Este sistema era composto de dez corpos celestes   ¾    número este, considerado pelos pitagóricos, perfeito  ¾    em que uma Anti-Terra, a Terra, a Lua, os planetas Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno, além da esfera das estrelas fixas teriam como centro um Fogo Central, de origem divina. A Anti-Terra estaria entre a Terra e o Fogo Central, impedindo a visibilidade deste.

Platão, investigando os segredos da misteriosa natureza, fixa as órbitas dos planetas, calcula o curso dos astros e afirma que os planetas movem-se em círculos perfeitos assim como todos os objetos celestes. Baseado nesta afirmação, Eudoxo não só a acatou, mas aproveitou-a e criou um sistema composto de esferas homocêntricas com os eixos de rotação diferentes mas agindo sobre os outros. 

Pelo fato desse sistema não conseguir explicar as variações das distâncias dos planetas em relação a Terra, o grande pensador Aristótales  em meados do século IV a.C., afirmou que o movimento  dos corpos celestes também era circular e uniforme e concebeu o centro do universo como sendo a Terra, fixa aperfeiçoando, assim, o modelo de Eudoxo. O modelo cosmológico elaborado por Aristóteles perdurou até a Idade Moderna, ou seja, no período entre 1453 e 1789 quando houve a Revolução Francesa.

A partir de Aristótales os sistemas cosmológicos começaram a ganhar novas formas através de Heráclides do Ponto ou Pôntico  ¾   discípulo de Platão   ¾    foi o primeiro astrônomo que além de ter admitido a rotação da Terra em torno do seu eixo, explicando assim o movimento observado nas estrelas, imaginou que Mercúrio e Vênus girassem em torno do Sol.

Começa a partir daí o criação de um modelo  e surge um outro astrônomo que se destaca com a criação do  primeiro modelo heliocêntrico do Universo. Este astrônomo da antiguidade, contemporâneo de Euclides chamava-se Aristarco de Samo que estendeu as idéias de Heráclides  para os demais planetas.

Nessa época o que predominava era as idéias aristotélicas e, em conseqüência, o modelo apresentado por Aristaco de Samos, que contrariava o senso comum, teve pouca aceitação. Em seguida, surgiu Apolônio, que ao invés de utilizar a teoria da revolução das esferas para mostrar o movimento dos planetas, inventou a teoria dos epiciclos, segundo a qual cada estrela gira ao redor de um ponto. Posteriormente, apareceu o modelo geocêntrico clássico com Hiparco, que para alguns estudiosos foi o inventor do astrolábio  ¾   antigo itronomia  Decorridos aproximadamente dois séculos, surge o mais célebre astrônomo da antiguidade Cláudio Ptolomeu, para Almagesto " os conhecimentos astronômicos de seus antecessores. Ele desenvolveu seu sistema geocêntrico conhecido, também, por teoria ptolomaica ou geocêntrica  baseado no sistema de Hiparco e introduziu o equante na teoria do epiciclo, ou seja, ele supôs que a Terra esteja imóvel no centro do Universo, e que o Sol, a Lua e os planetas giram em torno dela, descrevendo órbitas comexas. 

Este sistema dominou a astronomia durante quatorze séculos quando surgiu outro pensador, o astrônomo polonês Nicolau Copérnico que, após análise de toda a teoria dos seus antecessores, construiu o modelo heliocêntrico onde os planetas deveriam girar em torno do Sol e introduziu  alguns epiciclos em seu sistema com a finalidade de explicar alguns movimentos planetários.

A crescente controvérsia sobre as duas teorias estimulou os astrônomos a obter dados de observação mais precisos; esses dados foram obtidos  pelo último dos grandes astrônomos a realizar observações sem usar telescópio. chama-se Tycho Brahe   ¾   astrônomo, por convicção,  e matemático, por necessidade, dinamarquês nascido em Knudstrup, Scania ao sul da Suécia, no dia 14 de dezembro de 1546, três anos após a morte de Copérnico, tendo sido o  primeiro filho, de uma geração de dez irmãos, de Otto Brahe e Beatte Bille, uma família nobre da Dinamarca. 

Otto era um advogado que exercia o cargo de governador de um departamento na cidade de Helsingborg e usufruía de um grande prestígio, mas ganhava muito pouco. Após o nascimento do irmão mais novo, Jorgen, seu tio, adotou o jovem Tycho, pelo fato do pai dele não ter condições suficiente para criá-lo, como também, ser um homem bastante rico e sem filhos. Assim sendo, seu tio assumiu a sua tutela, o que foi muito bom para Otto, pois ele sabia o quanto seu filho herdaria quando da morte de Jorgen.

Para atender ao anseio da família, contrariando a sua natural vocação para a astronomia, Tycho foi obrigado a estudar, aos 13 anos, direito e filosofia, cursando durante três anos, na Universidade de Copenhague. Posteriormente, foi para Leipzig, Rostock e Augsburg, na Alemanha, onde aperfeiçoou seus conhecimentos humanísticos. 

No dia 21 de agosto de 1560 é previsto um eclipse total do Sol e em outubro quando a previsão se cumpriu diante dos olhos de Tycho, ele ficou maravilhado  despertando-o   fascínio pela astronomia, e a partir daí, pela forte emoção estética do momento, como pela admiração ante a sabedoria dos astrônomos que o haviam previsto nasceu sua obstinada decisão de tornar-se, também, um astrônomo. Logo ele começou a comprar livros de astronomia e a ler os escritos de Ptolomeu e, em conseqüência, a sua cultura astronômica formada por uma leitura assídua, desenvolveu-se durante os anos de 1562 a 1565.

Em 1563, Seu tio Jorgen morreu depois de contrair pneumonia, após resgatar Frederico II ( 1559  -  1588  )  ¾   Rei da Dinamarca e da Noruega que empreendeu uma longa guerra contra a Suécia  ¾  do afogamento, quando este caiu de uma ponte  quando do retorno de uma batalha naval com os suecos entre 1563 e 1570.

Em 17 de agosto de 1563, Júpiter passou muito perto de Saturno; Tycho  utilizando instrumentos rudimentares como a esfera e o compasso pode demonstrar as imperfeições das Tábuas Alfonsinas, baseadas, no sistema de Ptolomeu. Esses erros eram de  um mês ao predizer o evento , e as tabelas de Copérnico erraram por vários dias. Ele decidiu que melhores tabelas poderiam ser calculadas após observações exatas e sistemáticas das posições dos planetas por um longo período de tempo, e que ele as realizaria. Foi nessa ocasião que ele chamou a atenção dos astrônomos para a necessidade de dotar a astronomia de instrumentos mais precisos e de técnicas de observação mais aperfeiçoadas. Seus primeiros trabalhos despertaram o interesse dos seus contemporâneos, que perceberam nele qualidades excepcionais de pesquisador.

Logo a seguir, Tycho Brahe foi estudar astronomia nas Universidades de Wittemberg, Rostock, Basilea e Ausburg. Durante esse período aconteceu um fato curioso: Em uma discussão encarniçada com Tycho sobre um problema matemático um outro estudante fê-lo perder o nariz num duelo a espada. A partir de então, Tycho foi obrigado a usar maquiagem para dissimular, em virtude de uma prótese metálica.

Brahe se tornou um preciso observador e distinguia-se pelo rigor científico que imprimiu às suas investigações astronômicas. Acumulou mais dados que em todas as demais medições astronômicas, terminando, com a invenção do telescópio no começo do século XVII. Desse modo, realizou medidas sistemáticas e precisas da posição dos planetas, do Sol e da Lua, a partir das quais encontrou que os planetas se desviavam das posições estabelecidas pelos movimentos epicíclicos e resolveu o problema do movimento lunar. Os seus interesses científicos incluíam, também, a Alquimia e Astrologia.

Em 1570, Brahe retornou à sua pátria, depois da morte de seu pai e, o seu tio materno, Steno Belle, consentiu que ele instalasse um observatório astronômico no castelo de Herritzvad.

No dia 11 de novembro de 1572, descobriu a stella nova ( estrela nova ) da constelação de Cassiopéia, brilhava mais do que Vênus, era tão brilhante que podia ser  tempo se associava a região sublunar. 

Tycho tinha recém terminado a construção de um sextante com braços de 1,6 metros, com uma escala calibrada em minutos de arco, muito mais preciso do que qualquer outro já construído até então, e demonstrou que a estrela se movia menos do que a Lua e os planetas em relação às outras estrelas, e portanto estava na esfera das estrelas; determinou, com precisão extraordinária para a época, a posição exata dessa estrela nova; demonstrou que não se tratava de uma cometa e que, contrariamente ao que se supunha então, ela se encontrava além da Lua.

S  e  x  t  a  n  t  e

Sextante  - [ Do lat. sextans, sextantis ].

Instrumento munido de um setor graduado de 60º ( sexta parte da circunferência ) que possibilita medir a altura dos astros a partir de um ponto  qualquer. O objetivo é medir um ângulo entre dois objetos. 
Nem sempre se medem alturas de astros. Em navegação podemos medir a altura de um objeto para calcularmos a sua distância ou ler o ângulo entre dois objetos na horizontal para cálculos semelhantes.

 

 


Em 1573, publica, em Copenhague, os resultados das suas observações no opúsculo  "  De Nova et Nullius Aevi Memoria Prius Visa Stella "  ( Sobre a Nova e Previamente Nunca Vista Estrela ).

Em 1575, após haver ministrado um curso de astronomia em Copenhague, empreendeu nova viagem de estudos à Alemanha e à Itália. A convite do Rei Frederico II, ele voltou á Dinamarca, que lhe concedeu, por doação, a ilha báltica de Hven, perto do castelo de Hamlet em Elsinore ( cidade portuária da Dinamarca, no Nordeste da península da Jutlândia, às  margens do Sund ) e uma pensão anual.  O Rei ofereceu, também, apoio financeiro para construir e equipar um novo observatório astronômico. Brahe aceitou a oferta e em 1576 começou a construção do castelo de Uranienborg ( fortaleza no universo ) e o observatório de Stellaborg, o primeiro dotado de amplas instalações e enriquecido com aparelhos mais modernos e de dimensões até então desconhecidas dos astrônomos. Dentre os aparelhos sofisticados estão vários relógios ( clepsidras ou relógio de água  ¾    relógio cuja origem remonta ao Antigo Egito e que mede o tempo de acordo com o escorrimento regular da água num recipiente graduado   ¾  , ampulhetas de areia, velas graduadas ou semelhantes ). Os aparelhos e instrumentos de observação eram bastante precisos para o seu tempo , pois registrava de forma minuciosa uma série de medições astronômicas por longos períodos de tempo.

Em 1577, quando da passagem de um cometa, Tycho demonstrou que o astro não apresentava paralaxe diurna, fato este até então negado pelos astrônomos. Ademais, demonstrou que o cometa se movia entre as esferas dos planetas, e, portanto, que o " céu " não era imutável e as  " esferas cristalinas "  concebidas na tradição greco-cristã não eram entes físicos. A partir dessa observação, ele passou a observar os cometas dos anos de 1580, 1585, 1593 e 1596 e sua reduzida paralaxe levando-o a supor que se tratava de fenômenos supralunares, situada, portanto, distante da atmosfera terrestre, refutando as idéias de vários astrônomos. A determinação da órbita dos cometas,  que atravessava diferentes planetas permitiu a Brahe encerrar definitivamente  a idéia das órbitas como corpos materiais.

Brahe conheceu a teoria heliocêntrica de Copérnico, mas, movido talvez por preconceitos religiosos, preferiu adotar uma posição intermediária entre ela e a  teoria ptolomaica, ainda em uso. Desse modo, o sistema cosmológico de Brahe procurou conciliar o geocentrismo com o heliocentrismo, ou seja, todos os planetas, com exceção da Terra, giram em torno do Sol, e este, acompanhado dos outros, giram em torno da Terra.

   1  -  Sol

  2  -  Lua

  3  -  Terra

  4  -  Mercúrio

  5  -  Vênus

  6  -  Marte

  7  -  Júpiter

  8  -  Saturno

O Sol e a Lua giravam ao redor da Terra, 
mas admitindo que Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno 
o faziam em torno do Sol.

Em 1588, publicou em Uraniburg a sua obra intitulada   " Mundi Aetherei Recentioribus Phaenomenis "  ( Sobre o Novo Fenômeno no Mundo Etéreo ) na qual aborda assuntos relacionados às observações do cometa que surgiu em 1577.

Nesse mesmo ano, depois da morte do Rei Frederico II, Cristiano IV, seu sucessor, juntamente com a alta corte de justiça retirou todo o seu apoio a Tycho e reduziu consideravelmente os  seus rendimentos. Conseqüentemente, Tycho, desiludido, deixou a Dinamarca em 1597, indo para Rostock e, em 1598, para Wandsbeck, onde publicou mais uma obra intitulada  " Astronomiae Instauratae Mechanica "  ( Digressões sobre mecânica astronômica ) na qual descreveu os instrumentos que ele mesmo inventou e ajudou a construir, e com os quais realizou sua obra gigantesca.

O Rei Rudolph II , da Boêmia, ao tomar conhecimento dos fatos ocorridos com Tycho, o convidou e, em 1599, ele desembarcou em Praga instalando-se no castelo de Benatki, que o rei pusera à sua disposição. Posteriormente, ele foi nomeado pelo rei, matemático imperial. O rei ofereceu uma pensão de três mil ducados e um lugar pra construir um observatório semelhante ao que ele possuía. Um ano após, Tycho convidou Johannes Kepler, que era seguidor convencido de Copérnico, para exercer o cargo de assistente e, também, fazer que ele aderisse ao seu modelo cosmológico. 

No dia 24 de outubro de 1601 faleceu esse eminente cientista e foi sepultado na igreja Tyn, em Praga. 

Após sua morte, sua obra-prima foi editada em 1603 por seu mais ilustre discípulo e colaborador, Kepler, com o título  "  Tychonis Brahe astronomiae instauratae progymnasmata "  ( Novos conceitos astronômicos de Tycho Brahe ). Suas obras podem ser confrontadas  com as dos seus seguidores, Kepler, Galileo e Newton cada um dos quais apresentou sua valiosa contribuição no campo da astronomia.